thick as a brick, Jethro Tull, 1972.

"Deixe-me contar-te as histórias de sua vida
Do seu amor e o corte da faca
Da opressão incansável, da sabedoria instilada
Do desejo de matar ou ser morto
Deixe-me cantar sobre os perdedores estirados
Na rua enquanto o último ônibus passa
As calçadas estão vazias
Nas sarjetas escorre o vermelho
Enquanto o tolo brinda seu deus no céu
"

Thick as a brick, Jethro Tull, 1972.

quarta-feira, 6 de junho de 2012


A ilustre proprietária do nada

                                   por Bruno Sérvulo¹

                                                                                                 

O conforto é um privilégio de poucos ainda mais nesse modelo de sociedade onde todos nós procuramos cada vez mais melhorias para nossas vidas. Mas isso já é sabido por todos. Ora mais é claro! O que talvez muitos não saibam é que modelo de conforto realmente é o conforto de fato? Uma boa casa? Um bom carro? Ou talvez tudo isso e algumas coisinhas mais? 

Existem situações das mais diversas possíveis no que diz respeito ao conforto ou a inexistência dele. Perto daqui “vive” uma cidadã como qualquer um de nós. Porém sua situação é um pouco complicada. Ela mora na rua, e é conhecida por pseudônimos como a maioria desses hóspedes de rua. Passa o dia inteiro perambulando pela rua à catar miudezas, que tornam-se seus pertences.

            Passa por aqui, por ali e vai e vem ela sempre aparece perto da gente. Sempre pede um trocadinho nunca mentindo seu objetivo para com o dinheiro arrecadado, “tomar um pinguinho” que para ser mais objetivo é o mesmo que tomar uma lapada de cana. Quase sempre não conseguindo o dinheiro para os vícios primordiais, que são dois, o de beber cachaça e mascar fumo, sempre compra a cachaça com o pouco dinheiro conseguido e o outro ela engana a pegar pontas de cigarros jogadas ao chão e mascar. Vejam bem, seu conforto se resume a basicamente dois vícios. Que um ela já não consegue satisfazer.

            Certo dia ela me pediu um trocado arriscando até um argumento como justificativa. Chegou, olhou, estendeu a mão e disse:

-- você me da um dinheirinho pra eu tomar um pinguinho? Porque você sabe, é melhor beber do que fumar maconha...  

Confesso que ri na hora, não pela situação em que ela se encontrara, e sim pelo argumento por ela improvisado com maestria e por ter confiado no meu conservadorismo inexistente. Outra vez chegou e da mesma forma pediu dinheiro mais dessa vez foi menos categórica ao argumento. Pediu dizendo que queria tomar uma cana para disparecer um pouco, pois se encontrava muito preocupada com a vida.

 Como vemos, situações de conforto muitas vezes se confundem com a de desconforto quando vistas por uma ótica materialista. Sinceramente não sei se ela é feliz se satisfazendo entre um gole e outro de cachaça, mas sei que ela se encontra lá sempre indo e vindo e procurando cada vez mais pertences para montar o seu grandioso império do nada. E até uma sede já foi confiscada por ela à se tornar sede do seu império, a bela e arejada esquina da cobal. 

                             

¹ Estudante de Direito e de Turismo

                                                      


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