A ilustre proprietária do nada
por Bruno
Sérvulo¹
O conforto é um privilégio de poucos ainda mais nesse modelo de sociedade
onde todos nós procuramos cada vez mais melhorias para nossas vidas. Mas isso
já é sabido por todos. Ora mais é claro! O que talvez muitos não saibam é que
modelo de conforto realmente é o conforto de fato? Uma boa casa? Um bom carro? Ou
talvez tudo isso e algumas coisinhas mais?
Existem situações das mais diversas possíveis no que diz respeito ao
conforto ou a inexistência dele. Perto daqui “vive” uma cidadã como qualquer um
de nós. Porém sua situação é um pouco complicada. Ela mora na rua, e é
conhecida por pseudônimos como a maioria desses hóspedes de rua. Passa o dia
inteiro perambulando pela rua à catar miudezas, que tornam-se seus pertences.
Passa por aqui, por ali e vai e vem
ela sempre aparece perto da gente. Sempre pede um trocadinho nunca mentindo seu
objetivo para com o dinheiro arrecadado, “tomar um pinguinho” que para ser mais
objetivo é o mesmo que tomar uma lapada de cana. Quase sempre não conseguindo o
dinheiro para os vícios primordiais, que são dois, o de beber cachaça e mascar
fumo, sempre compra a cachaça com o pouco dinheiro conseguido e o outro ela
engana a pegar pontas de cigarros jogadas ao chão e mascar. Vejam bem, seu
conforto se resume a basicamente dois vícios. Que um ela já não consegue
satisfazer.
Certo
dia ela me pediu um trocado arriscando até um argumento como justificativa.
Chegou, olhou, estendeu a mão e disse:
-- você me da um
dinheirinho pra eu tomar um pinguinho? Porque você sabe, é melhor beber do que
fumar maconha...
Confesso que ri
na hora, não pela situação em que ela se encontrara, e sim pelo argumento por
ela improvisado com maestria e por ter confiado no meu conservadorismo inexistente.
Outra vez chegou e da mesma forma pediu dinheiro mais dessa vez foi menos
categórica ao argumento. Pediu dizendo que queria tomar uma cana para disparecer
um pouco, pois se encontrava muito preocupada com a vida.
Como vemos, situações de conforto
muitas vezes se confundem com a de desconforto quando vistas por uma ótica
materialista. Sinceramente não sei se ela é feliz se satisfazendo entre um gole
e outro de cachaça, mas sei que ela se encontra lá sempre indo e vindo e
procurando cada vez mais pertences para montar o seu grandioso império do nada.
E até uma sede já foi confiscada por ela à se tornar sede do seu império, a
bela e arejada esquina da cobal.
¹ Estudante de Direito e de Turismo
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